25 de abril de 2011

Serra

by Carina G. (com som)

29 de março de 2011

Ares de Verão

Ai os ares. Ares que se lhe dão. Ares de Verão. Medo... Vem o Sol e vem o turblhão. Como a Marilyn a sair do bolo enquanto o vestido esvoaça por cima da saída do ar. Do metro. Ao metro. Com o ar rectro: cabelo escuro e apanhado. Ondulado na franja. É canja. Lábios vermelho. Paixão. (... mais algum -ão?) Baton no guardanapo, deixo-te o meu recado. E um número. Mas só depois das 20h. Aproveitamos a lua. Cheia. De ideias na cabeça. Cheia. De imaginação (de novo -ão!) Agarro-te a mão e chamo-te à razão. São os ares. Os da noite. A brisa vem com o que tem. Os odores. As feromonas. As hormonas. O arrepio. Não é do frio. Sobe do elástico em V até ao Atlas. Desenha um caminho. Um carimbo. E traça-se a perna, como no filme. Salto alto. Mini-saia. Olhar penetrante. Sharon. Txaran! E cai mais uma vez. Re-cai... o cai-cai. É o Verão. E os ares que se lhe dão. Ai...

3 de fevereiro de 2011

É Fevereiro de novo!

Bom dia! Sem a querer incomodar, posso-lhe fazer uma pergunta? Sim, pode. Diga-me só, se faz o favor: está sol hoje? Ela olhou para cima, para os lados e até para baixo e confirmou: um bonito e quente Sol. Daqueles que deixa uma peugada na nuca. Ecológica! Ao ponto de o querer comer às dentadas. Pequenas e matreiras. Fortes e certeiras. Que tatuam os dentes na face interna da coxa. Aquele Sol que me lembra todos os passeios à beira rio. E as árvores ergonómicas escondidas na vegetação, sem caixote do lixo para esconder os vestígios. Os buracos nas sebes, obscuramente iluminados por este Sol poderoso que me lembra a boa vida, as boas conversas. E os beijos. O sol lá em cima que foge sem ser tocado. Que brinca e que se esconde, como a areia que penetra por dentro da roupa e descobre o seu caminho e pica e faz comichão e arranha agarrada na mão que não tocou o sol. Mas tocou. Este sol que nos levanta quando se levanta. I still remember... Isso quer dizer que não preciso do meu guarda-chuva? Não. Guarde tudo e deite fora. E vá para fora! Ou melhor, venha aqui dentro...

27 de janeiro de 2011

Possibilidades

Desculpa se mais não faço do que olhar-te ao longe e sorrir-te para dentro, para que não vejas nem sintas. Se te cheiro a vir desvio o caminho para que os meus olhos não tenham que te ouvir falar. Trivialidades. Impossibilidades. E continuou ainda: Penso-me do chapéu às botas como se não houvesse mais. De mim. Ou mesmo dos outros. Para além do visívil, entenda-se. Mas fazemos todos parte da mesma bolha. Respiramos é perfumes diferentes. Eu, só cheiro sabonete com duas pingas de colónia. Porque é essa que não me larga o olfacto. O facto é que ainda não guardei o telescópio que aponta ao céu... E mais não disse.
"E é evidente: conhecem-se os homens pelo que lêem
mas não só. Como matam - que armas usam -
e como se apixonam - que palavras utilizam nas
declarações de amor. Ah, e ainda um pormenor: de

[quem
tens medo? E que nome dás à coisa grande que do céu
nunca chega a vir porque prefere manter-se assim,
possibilidade?
Se decifrares o último barulho que um muribundo faz,
descobrirás a sua religião, eis uma certeza."



Gonçalo M. Tavares
in
Viagem à Índia

7 de janeiro de 2011

"A ausência de fronteiras confere ao deambular um carácter aventuroso, sem risco. O mapa mental correspondente aos trajectos a efectuar possui uma textura plástica, móbil. O pensamento tanto pode ir para a esquerda como para a direita, oscila, perde-se por instantes, esquece-se, acorda novamente, hesita, embala-se, durante horas, neste movimento..."
***
José Gil
in
Portugal, hoje:
O Medo de Existir

4 de janeiro de 2011

"O meu corpo não te esquece"

Com que pele te identificas mais? Qual das muitas que usas te encaixa melhor? Vejo-te com tantas que me perco. Que me baralho. Embaralhas-te em células quadriculadas que vestes de forma aleatória. Ou não? Muda-la quando? Mensalmente? Semanalmente? Presumo que o faças várias vezes no mesmo dia, consoante te encaixas com maior ou menor facilidade no ar que respiram de ti. Há um ardor que se vai sentindo. Urgindo. De dentro para fora, tal e qual como a beleza, quem diria!? Que bem que ficas com a tua pele preferida. Transpareces luz e vida. Viva! Tão intensa e brilhante, que me pergunto de onde vem o tom baço com que já te vi passar por mim. Uma pele não se esquece. Fica cravada em nós como única. E a tua pele... aquela... Te-la-ás mudado nesse dia? Fico na dúvida para quem o terás feito. A pele, deste lado, também não se esquece. Deve ser um reconhecimento intrínseco de peles, uma coisa só delas. Como se identificassem um padrão. Um genoma. Como se decifrassem um código. Um anagrama. Olham-se e resolvem a demonstração que as completa. É um clássico problema de pele. De pele com pele. Ao ponto de, às vezes, não se caber na própria pele com que se anda, como já dizia a canção. Também o corpo não esquece uma pele. Sei de um que dói só de pensar. E de tanto pensar, já me esquecia, que está na hora de mudar para a pele do ano que chegou: clean.

14 de dezembro de 2010

Como nos sonhos

Saltou a vedação e correu. Arame farpado rasgado no tecido desfiado que lá ficou. Lá. Pedaços de fibra e algodão e carne e sangue. Suor que escorria enquanto corria. Sal líquido reluzente em prisma com o Sol. Entrou com a mão dentro da cabeça e arrancou a dor lancinante. Cefaleia-enxaqueca que não despega nem descola, nem fica para trás. Dilacerante. Correu para fugir e deixar de fingir. Analgésico ineficaz que seca o corpo e a voz. Analgésico atroz que prende com pionés o asgar.
Saltou a vedação e correu. Como nos sonhos, sem velocidade. Preso ao chão que lhe foge e de quem foge. A pressa. A taquicárdia. O medo. O acelerar. Como nos sonhos, sem conseguir. Força impulsionadora nos músculos inertes. Potencial de acção com falta de urânio. Mover-se sem conseguir. Chegar mais além sem sair do sitio. Como nos sonhos: voar de bruços. Nadar sem asas. Para além de flutuar ou pairar. Ícaro derretido, como o mágico Escocês. A parésia. Os alvéolos nos lábios para tentar respirar.
Saltou a vedação e viveu.

Sei-te de cor

Por que te sei. Não de cor. Mas sei. Sei-te os passos e as acções. Conheço-te os pensamentos e as intenções. O cheiro que fica e não vai. O toque. O toque... não sai. Sei o que queres antes de ti. Sei o que precisas. Não é de mim. Há em ti uma intermitência agri-doce. Eu, prefiro um a seguir ao outro. Não de ti.
Oiço ao longe os teus passos e adivinho-te o caminho. Seguros e sorridentes. Sei o teu número. A tua peça. Mas o palco é meu. A pele os pelos o pululuar de agitação. Passaste do estômago para o coração. Daí, para o pensamento. Sei-te aí: guardado. Seguro. Tenho-me aqui. A seguir. A sorrir. Reconforto-me naquilo que sei e gosto: ... Por que te sei. Mas sei-me melhor a mim!

30 de novembro de 2010

Cobiça


22 de novembro de 2010

O preço do jogo

Vamos ao jogo!
Vens ao jogo?

O tabuleiro está montado. Está sempre montado. Trás as peças. Xadrez! Vamos fazê-lo de forma contemporânea. Dandiesca. Trás o Eça e o Wilde. Xerez para beberem em copo de cristal. Bohémio. Não há outra maneira sedutora de o jogar. Monta as peças. Como um quadro. Como num filme. Os peões na frente. O protagonista atrás. A torre ao lado da Rainha e do Rei. As damas na outra ponta. É o teu jogo. Aguardares que a Rainha se dê a comer. A de copas. Roliça. Opulenta. Suculenta. Marie Antoinette no seu esplendor. Como nos contos. Ponto por ponto ficas no jogo. Lábios vermelhos desenhados. Que Maravilha, Alice. Esconde-te com requinte no chapéu enquanto a cabra, cega, corre atrás de ti. E sobe, sobe que sobe na tua própria pontuação. Adiciona ao espólio troféus. Monta bem? Dama dupla. King size. Corre de uma fiada à outra. Come de uma acentada. Não sobra nada. É o jogo. Peças. Peões. Paixões. Estilhaços. Experimenta-me. Dá-te. Aumentas de tamanho e és o papão. Come a papa, Joana. Come. Uma, duas, três. O trunfo é paus. Espeta a espada ao Rei. Tentador?
Ainda queres vir ao jogo?

Xeque-mate.

14 de novembro de 2010

De novo, do início, como novo

A adoração pelo perfeccionismo como catalisador de uma vida. A impossibilidade de dirigir essa mesma vida se não segundo um valor matemático, em que não há planos nem rectas côncavas ou convexas. Em que o espaço não se torce nem dobra sobre si mesmo. Em que as leis da física, seculares, servem como verdade absoluta. A sua verdade. À sua maneira. A sua física. A sua quântica. Recta! Medições milimétricas a régua e esquadro. O compasso para confirmar a sua razão. E as marcações a tinta da china, para não deixar lugar a enganos. De cinco em cinco milímetros, tick! Mais cinco milímetros: tick! Tick! Tick! Marcado como uma folha de cálculo. Uma prisão a preto e branco em que as linhas, rectas, perfeitas, milimétricas, verticais verificam que os pontos unem. A sua certeza. Recta.
Tudo tem o seu lugar no universo. Tudo. No seu! São leis! É a ordem.
Esterilidade. E um bisturi. Tiras de pele contínuas, equidistantes, nunca somente e apenas semelhantes. Iguais! Gémeas de si mesmas do princípio ao fim. Carris de comboios rápidos retirados do seu lugar com luvas de ourives. Numeradas em romano para nunca saírem do seu lugar exacto na imensidão do universo. Lágrimas de admiração para as lubrificar com o seu próprio ADN...

... agarrou-as, a todas, as tiras, num único novelo. Nem vértices, nem pontas, nem soltas, nem horizontalidade. Romanos misturados com poros e pelos e paixão. Misturou-as e formou um novo abecedário.

7 de outubro de 2010

Nada... simplesmente

Nadar numa piscina a meio da noite. Na piscina. Naquela. Especificamente. Não é a imagem que se lhe cola ao pensamento. É a sensação. É a água pelo corpo. Esguia. Fria. É a ondulação lenta e ritmada das braçadas sequenciais. O serpentear do ruído marítimo. Os declives. As inclinações. Os socalcos formados pelos altos e baixos de si e do resto. A geografia ergonómica em que se acoplavam. Ela. A água. A vida.
Suster a respiração e seguir. Avançar de braços rectos e cortar o momento. Furar o caminho. Não respirar. Um, dois, três, quatro... doze, treze segundos. Seguidos. E chegar. Tocar com a mão para marcar o momento e com a mão continuar a escavar. Sem respirar.
Abrir os olhos e ver as estrelas. Olhar à volta e tudo luzir. A noite clara feito dia. São as lamparinas das mil e uma noites. Mil e uma lamparinas numa noite mais fria que gelo. Mais fria que a água. Envolta em slofane de cloro. Azul-transparente. Azul-sem-cor. Neutro. Os olhos obnibulados após cada pestanejo. Sem respirar. Um, dois, três, quatro. Pestanejo... doze, treze segundos. Seguidos. Pestanejo... vinte e oito, vinte nove... Não respira. Nada. Flutua. É um nenúfar na sua piscina. Nenúfar azul-noite. Azul-sonho. Nada... numa piscina a meio da noite. Especificamente.

6 de outubro de 2010

"Lá vai ela, formosa e segura..."

5 de outubro de 2010

Expiação

s. f. acto ou efeito de expiar; cumprimento de pena ou castigo; penitência; pl. preces para aplacar a cólera celeste; (Lat. expiatione)

Expiação


27 de setembro de 2010

It

É sempre igual. Sempre... Segue por uma corda. Recta. Rígida. Por rectas e curvas. Em espiral. Segue como um equilibrista chinês que nunca pisou chão firme. It, chamemos-lhe. Não é Ele nem Ela. It. It caminhava hirto. Rígido. Quebradiço. O chão tinha a largura de um palmo. A planta era apenas do pé. A visão era da mesma largura. Dez centímetros de corda enrolada. Dez centímetros de visão periférica. Para a esquerda. Para a direita. A corda tinha curvas. Levada pelo vento curvava as tempestades. It. Andrógino. Não sentia o vento nem a chuva. Só não podia olhar para trás. De frente as cores corriam olhos adentro. Como o Mar rio adentro quando a Terra se encontrava de pernas para o ar. Mas mesmo aí seguia em frente. It. Cabeça para baixo, ligado pela planta à corda. A visão era cónica. A perspectiva era sua. Esguia. Escorregadia. E sempre, sempre quebradiça. A visão, como os passos, só seguiam. Retrocediam apenas de costas. Fugiam de trás para a frente. Porque de trás, onde a vista não olha. Onde o olho não vê. É a preto e branco. E sempre igual. Sempre...

13 de setembro de 2010

Pedaçando

É o calor abrasador que leva a esta letargia. O fresco do cimento cinzento-brisa espevita as fibras musculares e aperta com os neurónios. Não estão habituados. Sempre trabalharam voluntariamente sem comando ou direcção. Ao abrigo de uma qualquer emenda sempre se impuseram perante a sua vontade. Até terem sido arrancados à casa mãe.
Os passos são múltiplos no cinzento-brisa. Os meus estáticos. Atolados até aos joelhos. Barro seco nas rótulas imóveis e geladas. É da brisa. Sentada no chão. Cinzento-Tate. Brisa-Britain. É o odor da arte que me faz repensar. Recriar os passos aprendidos. Odor forense. Redescobrir onde ficaram todos os pedaços desmembrados. Salpicados por aí, como uma tela. Miró apanhou alguns e colou-os às riscas e riscos e pingos. Dalí derreteu-os. E aqui, na Tate, no cinzento-brisa do chão, os odores contemporâneos apenas me podem avivar a memória.
O ventrículo a bater no meu lábio espicaça-me a vontade. É o esquerdo. A força do corpo sopra aqui. Jorra. Fui pedaçada por etapas. Em tempos uma mão a mais. Borboletas que não me competiam. Agora um cimento nos pés. Uma letargia no corpo. Um pensamento que não é meu. Ao me pedaçar, perdi-me. Deixei-me roubar. Ou ter-me-ei dado?
Pondero regressar e pedir para ser pedaçada de novo.

*Pedaçar: acto de juntar por meio de cola humana partículas de corações e almas. (Verbo definido pela Lina e e tri-partilhado com a I)

9 de setembro de 2010

折り紙 do olhar

Deixa-me ler-te nas entrelinhas. Nas estrelas. Nas linhas. Nas minhas que traço com vontade dissimulada. Mascarada. Como se não quisesse. Deixa-me ler-te entre as minhas. Linhas. Nas estrelas à noite quando brilham. Nas formas que formam. Em linha. As estrelas. As minhas. Nas histórias que contam só de olhar. Nas histórias que se constroem só de imaginar. Deixa-me olhar-te por entre as linhas. Por entre os anos-luz. Por entre as estrelas. Minhas. Desejadas. Nas entrelinhas. Deixa-me...