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14 de novembro de 2010

De novo, do início, como novo

A adoração pelo perfeccionismo como catalisador de uma vida. A impossibilidade de dirigir essa mesma vida se não segundo um valor matemático, em que não há planos nem rectas côncavas ou convexas. Em que o espaço não se torce nem dobra sobre si mesmo. Em que as leis da física, seculares, servem como verdade absoluta. A sua verdade. À sua maneira. A sua física. A sua quântica. Recta! Medições milimétricas a régua e esquadro. O compasso para confirmar a sua razão. E as marcações a tinta da china, para não deixar lugar a enganos. De cinco em cinco milímetros, tick! Mais cinco milímetros: tick! Tick! Tick! Marcado como uma folha de cálculo. Uma prisão a preto e branco em que as linhas, rectas, perfeitas, milimétricas, verticais verificam que os pontos unem. A sua certeza. Recta.
Tudo tem o seu lugar no universo. Tudo. No seu! São leis! É a ordem.
Esterilidade. E um bisturi. Tiras de pele contínuas, equidistantes, nunca somente e apenas semelhantes. Iguais! Gémeas de si mesmas do princípio ao fim. Carris de comboios rápidos retirados do seu lugar com luvas de ourives. Numeradas em romano para nunca saírem do seu lugar exacto na imensidão do universo. Lágrimas de admiração para as lubrificar com o seu próprio ADN...

... agarrou-as, a todas, as tiras, num único novelo. Nem vértices, nem pontas, nem soltas, nem horizontalidade. Romanos misturados com poros e pelos e paixão. Misturou-as e formou um novo abecedário.

25 de agosto de 2010

A arte do agora

A cozinha não era muito grande. Quadrada mas não muito grande. Uma natureza morta presa no século passado. Uma casa Queiroseana transladada para uma cozinha do agora. Cortinados pesados e escuros. Papel de parede grosso, de flores secas e sem cor. Tamanho grande, ao contrário da cozinha. Até um candeeiro-candelabro. Cristal da Bohémia em gotas por cima da cabeça. Luz cintilante e redopiadora colada às quatro paredes. Como um céu. A mesa do chá, de três pés, de bola de cristal e cartas e búzios a um canto. O napron branco imaculado por cima. Orificios de renda meticulosamente trabalhados.

...meticulosamente...

A arte culinária estava decidida há muito. Era pouco mas há muito. O barulho dos tachos e panelas vindos do fogão, ao lado do candeeiro de pé alto, era praticamente surdo. O vapor apenas envolvia a cozinha com o calor. A temperatura que aumentava a par com os minutos. O relógio de parede. Mogno antigo e imponente com um traço de humidade. Marcava treze horas e sete minutos. O marcapasso era rígido e cirúrgico.

... cirurgicamente...

A mesa estava posta. Toalha de linho a fazer conjunto com o napron. À mão. Assim trabalhados. Os pratos gastos pelo uso apenas deixavam prever a sua idade através das ranhuras quase rasuradas dos bordos. Talheres de prata de família, reluzentes de nunca terem sido usados. A faca de cabo de crocodilo vinda de África, do interior negro e denso da selva africana. O umbigo retorcia-se só de a ver. Acutilante.

... acutilantemente...

Treze e vinte e oito. O barulho dos carros e das pessoas e dos animais e das lojas e do mundo e da vida e do vento e do fogo em nada pertenciam a este cenário controlado e previsível. O vapor já não vinha do fogão. A temperatura vinha do prato e do corpo e da respiração. Batatas sem casca, novas. Ovo cozido partido em quatro, amarelo e branco de caseiro. Brócolos verde intenso que apenas condiziam com a cor vermelha ardente da mão que estava dentro do prato. Vermelho sangue vivo. Novo. Do momento.

... Silenciosamente e com a mesma calma com que preencheu o prato de amarelo batata, de branco ovo e de verde brócolos, a faca crocodilo oscilava suavemente para jusante e montante. Ao nível do punho começava a surgir um rio eritrocitário de vermelho intenso. Meticulosamente, foi cortando a pele a carne o músculo as veias as artérias os tendões os nervos até chegar ao osso. Cirurgicamente, mais nervos tendões artérias veias músculos carne e pele. Acutilantemente. Recostou-se na cadeira. Era arte. Arte conduzida pela sua vontade sem dor. Deixou-se ficar a sorrir para o prato antigo com condimentos do agora. Apenas uma gota vermelha na toalha branca imaculada que fazia conjunto com o napron. À mão. A mão. Trabalhada. O resto do vermelho, pintava o chão e deixava-se levar pela corrente casa fora. Como um rio em direcção ao mar.

15 de dezembro de 2009

Finas e cruéis da vingança gelada e sádica

Quantas vezes tinha passado por eles sem os olham. Sem, sequer, fazer um esgar. Uma mirada. Um olhar de soslaio. A alta velocidade. Em excesso de potência. Do ver. Do esquecer. Quantas vezes tinha decidido que não iria mais passar por aquele mesmo sítio. O que havia a provar em todas as vezes? Em todos os dias a que se sujeitava à mesma provação? À mesma privação. À mesma emoção… Na mão, era onde os imaginava… da imaginação, era donde não saiam… As memórias marcadas a cicatriz pelo corpo abriam-se como um fogo constante e acutilante. Os bordos, nunca totalmente unidos, afastavam-se com o ardor. O calor… insuportável no pico do Inverno. Angustiante no clímax do Verão.

De braços e pernas atados. A força da defesa e da fuga. Em vão. O pânico do que se sabia. Do que se seguia. E a ausência. Off…

Bonecos de cristal. De todas as formas. De todos os tamanhos. De todos os feitios. Mas sempre de cristal. Azul-transparente. Azul-brilhante- Azul-penetrante. As formas arredondadas, finamente trabalhadas, milimetricamente sentidas a cada centímetro de área corporal. Mutilada. De forma laboral. Artesanal. A peculiaridade dos detalhes. A arte. A dor. As arestas. Os picos. Os arabescos. Os rendilhados. Perfeitamente colmatados.

Na mão, era onde os imaginava. Um a um. Um por um. Sem restar nenhum. Na mão. Esmigalhados. Esborrachados. Espezinhados. Crucificados. Mastigados. O sangue escorria a gotas seguidas e constantes. O quente catársico da viscosidade vermelha escura pelo corpo abaixo. Pelo corpo de baixo. O manto eritrócitario que cobria o corpo que restava, agora sem nada para atar. Agora sem nada para mutilar. Mutilado estava. Em fatias. Finas e cruéis da vingança gelada e sádica. O sangue do corpo… não havia mais. O da mão, que escorria, chegava para libertar todas as mágoas, todas as histórias, todas as mutilações infligidas durante anos por bonecos de cristal danificados. Afiados como um diamante penetrante. E penetravam. De forma missal em tudo o que não era visível. Apenas sensível.

Restou o corpo inanimado de sangue pintado de cristais adornado.

Provou a mão que ficou da fúria trespassada de vitória conquistada.

Ficou na montra da loja um resquício de um tempo passado.

Guardou na cómoda a vingança sólida, fatiada e extirpada do presente…

2 de outubro de 2009

Exorcização dos Demónios

Adiou. Adiou. Adiou. Até que não foi mais possível. Até que se tornou impossível! Era hoje. Agora. Não suportava mais e não queria mais testar o limite dos limites que acreditava já ter atingido e ultrapassado. O limiar da sanidade ainda presente lado a lado com o abismo para onde olhava. A exorcização dos seus demónios só seria feita na presença dos mesmos, com ou sem padre. Com ou sem mãe. Com ou sem amanhã. Ámen.

Entrou.

Um a um foram aparecendo. Todos eles. Todas elas. Criações suas, da sua cabeça, da sua ficção, da sua vida, do seu dia-a-dia. Todos ali presentes no mesmo espaço contíguo, limitado, delimitado e apertado. Na escuridão. O sufoco da sobrelotação da cabeça e do corpo. Da irrespirabilidade do espaço e da mente. Um a um, na sua vez, na sua loucura, na sua obsessão. Encarnaria cada uma das suas personagens até as esgotar de tanto as sentir, de tanto se sentir, até se esgotar e degolar de tanto as viver com a violência latente que emanava de cada gota de suor que escorria. E cada gota salgada era um novo corte. E cada gota de sangue era uma nova obsessão. E cada novo corte uma nova personagem, que testava, continuamente, compulsivamente para não sobrar nada de nada do nada que o nada é. E ficar o vazio e o vácuo. O nada. A mudez. A cegueira. A insensibilidade. A ausência, onde ficava a planar até, a pouco e pouco, ir voltando a si. Parestésica. Despida das feridas e das queimaduras infligidas. Aos outros. Despida dos pensamentos e das histórias. Dos outros. E voltar a Si. Febril. Letárgica… Lenta e delirantemente...

Cá fora, de novo. Nova.

27 de setembro de 2009

Incisões centimétricas

Tão normal. Vivia nessa normalidade, banal e habitual de todos e de todos os dias. Nada em si se destacava por demais. Simpaticamente tímida. Bem educadamente conversadora. Mediocramente trabalhadora. Nem mais, nem menos. Apenas o suficiente para não ser conhecida mais do que os outros, nem desconhecida como senão existisse. Aquela neutralidade do café com nata no café à porta do trabalho. Da sopa com salgado no snack da esquina. Do pão e congelados no supermercado da rua. Da comédia romântica gasta no clube de vídeo do bairro. E do ritmo biológico do dia seguinte, tão igual ao anterior. Tão igual aos que ainda esperam por vir.

...um centímetro... apenas um centímetro, hoje...

E os dias corriam. E a vida corria. Não era mais feliz do que ninguém, como se os outros importassem mais do que ela. Mas também não era infeliz. Era ela mesma. Era a sua vida. Ela era a sua vida e aquilo que vivia. Que sabia viver. Que sempre tinha vivido. E, se isso não fosse vida, o que seria, então? Não o que via nos outros ou que tentava ver. Muito menos o que acreditava descortinar dos gestos, das histórias, das redes sociais. Como se isso dissesse quem os demais eram. Dizia, de certa forma, que tinham necessidade de serem traduzidos, também eles, apenas isso.

... não muito fundo... tem que ser regular, normal e igual aos outros todos... mesmo que só um centímetro...

Sentia-se confortável consigo. De dia. Vestida. Tapada. A roupa na sua função estética, que podia muito bem ser estática. Era-o. Calças e mangas compridas. A exposição insconsciente sempre a tinha assustado. Não a que parece demasiado exposta aos outros, mas a que se expunha sem consentimento ou conhecimento ou sentimento. E o conforto era o casulo improvisado ao longos dos anos. A bolha de vidros esfumados que a revestia. Que a escondia dos outros, de dia. E de si, sempre.

... quantas incisões pelo corpo? Quantas hoje? Uma... um centímetro... pelo menos um... um por dia...

14 de setembro de 2009

E saía de casa a correr

“Perfume. Chave do carro. Telemóvel. Relógio. Cigarros.” Estava tudo confirmado, na sequência habitual e suposta: o perfume no aparador à porta de casa, geometricamente ao lado das cartas para pagar e dos folhetos de publicidade; a chave do carro tirada da mala e enfiada no bolso direito das calças de ganga; o telemóvel topo de gama, ainda sem mensagens àquela hora; o relógio que tirou da gaveta, sem olhar, não havia dúvidas, era o terceiro a contar da esquerda; e os cigarros, quatro, apenas. E saía de casa a correr. De manhã era praticamente impossível não sair de casa quase atrasada, fazia parte do seu ritual – acordar após o despertador ter tocado sete vezes, com intervalos de quatro minutos cada, de forma a adiar o mais possível a primeira dolorosa acção do dia e levantar-se ainda a dormir e seguir directa para a varanda, nua. O choque gelado da manhã, de Verão ou de Inverno, era o seu primeiro catalisador, a primeira injecção de adrenalina obrigatória e fundamental. Sem isso era como se não tivesse sequer saído da cama. Sem isso, nem valia a pena sair da cama, porque só na varanda, a sentir o frio da manhã na pele, na sua totalidade, centímetro a centímetro, é que o dia começava. Só aí, é que a corrente que irriga o cérebro se ligava e a engrenagem circulatória iniciava o seu percurso habitual, de forma súbita e sobressaltada. O resto, seguia de forma desordenada e banal, como só acontecia àquela hora matinal e em mais nenhuma. A desordem não a adjectivava, tal como o imprevisto não fazia parte das suas preferência. “Perfume. Chave do carro. Telemóvel. Relógio. Cigarros.” E saía de casa a correr.

9 de setembro de 2009

Como se fosse a primeira vez

Aproximou-se da porta, com passos de lã. Suaves. Mudos. Rasantes. Um pé de cada vez, a medo. Com medo de acordar o pó que se desviava à sua passagem. Com medo que o Mundo se apercebesse da sua presença, da sua existência. Evitava até respirar. Fazia-o com intervalos cada vez mais espaçados, de forma a não desperdiçar um único barulho, nem sequer o do ar à sua volta. A não desperdiçar o ar, sequer. A porta era logo ali. Tão ali. Já ali. E mesmo assim, tão longe, cada vez mais longe à medida que se aproximava. O êxtase. A excitação, como se fosse a primeira vez. Era sempre a primeira vez. A única. Porque acontecia, existia, mas passava. Não se repetia. Nunca se repetia. E cada nova vez era uma nova aventura. Isso mesmo, aventurava-se cada novo dia numa nova aventura. E cada dia se sentia mais inebriado, ébrio perante a ferocidade dos seus sentimentos, das sensações que lhe causava - das físicas. A porta. Os sons. O barulho. Os nervos. Os tremores. A ansiedade. A descoberta. O ser descoberto. E a coragem para lá chegar. Já rente, a sentir o cheiro cáustico do suor das mãos entranhado na madeira da porta. Simétricas. No mesmo local milimétrico onde a erosão tinha desenhado o leito da mão. Da sua. Suada. Sapuda. Servente do vício. Parado. Os olhos impenetráveis. Fixados, não se desviavam enquanto a mão, a mesma, rugosa, usada, depravada, abria o óculo da porta. Estático. Era aí que ficava. Estático a ver as pessoas passar na rua, nas suas vidas que aglutinava como dele. E ali ficava com uma lealdade religiosa de confessionário. Com uma depravação obstinada de filme pornográfico. E deglutia. A saliva pela garganta seca. E deglutia. A passagem dos transeuntes. Efémera. Pelas suas mãos. Molhadas. Pela sua vida. Vazia. Mas só dele. E em nada dele.