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23 de outubro de 2009

Faço-o para não ter que o fazer em necessidade ou desespero. Faço-o porque preciso. Faço-o para não ter que precisar.

Sempre que passo por aqui. Por este sítio. Por esta rua. Por estas escadas. Por esta porta. E vejo o desenho da luz reflectido no chão como sombras chinesas pintadas a guache, tenho que entrar. Sempre o mesmo sítio. Sempre a mesma rua. Sempre as mesmas escadas. Sempre a mesma porta. Sempre Eu em busca do mesmo sofá. Tive que voltar cá. Aqui. Por mais que procure, não existe outro como este. O conforto das coisas que conhecemos. Daquilo que podemos palpar de olhos fechados. A segurança do que sabemos ir encontrar. A descoberta. De nós mesmos. Aqui. O desconforto da nudez sentimental destapada por palavras monossilábicas. O chão volátil que flutua por baixo dos pés, como que a fugir. Como que, para não fugir. A rede sem malha que desprende as lascas agarradas às paredes. Uma a uma. Fagulhas incandescentes queimam, incrustadas na pele. Mas só aqui. Neste sofá. Dentro deste cubo. Transparente para fora. Opaco para dentro.

31 de agosto de 2009

Posso entrar?

Resolvi entrar sem bater. A porta estava aberta e, se assim estava, é porque só podia ser um convite a quem passasse. Não que eu estivesse de passagem. Passei, mas porque vinha a caminho. No fundo estamos sempre em busca de algo, a caminho de alguma coisa, mesmo quando estagnamos, imóveis, imutáveis. E uma porta aberta, é quase um voucher de aventura, com o desconhecido do outro lado. Posso-me sentar? Obrigada. Vim de escadas, achava que assim chegava mais rápido. Achava que assim chegava cá, não me fosse enganar a carregar no botão do elevador. Não seria a primeira vez. Certa vez fiz uma viagem além fronteira só porque marquei o andar errado. Ou terei marcado o certo? Acabei a andar num tapete voador, daqueles persas, trabalhados. E como aquilo voava! Mas foi uma viagem curta. Mas foi uma viagem inesquecível! Mas foi já há muito tempo. Parece que as coisas boas, foram sempre há muito tempo. O presente nunca é suficiente, nunca é o esperado, como se as nossas expectativas ficassem sempre aquém. O presente é sempre um meio-termo, um termo meio cheio, cheio de tudo aquilo que, de momento, nem sequer queremos. Só na falta do que temos, quando se transforma em passado, é que passa a ser bom. Que inconstância. Que inquietude. Que instabilidade. Nota-se que ando mais instável? Claro. Foi por isso que vim. E entrei. Resolvi entrar sem bater porque a porta estava aberta. Achei que não faria mal. Mas, se calhar, vim em má hora. Vim? Posso voltar noutra altura. Quando estiver de passagem a caminho de alguma coisa ou em busca de algo. Talvez até encontre e já não precise de entrar. Talvez a porta já esteja fechada. Fecho-a quando sair? Obrigada.

2 de julho de 2009

Vou à água. Sim, vou à água. À água? Sim, à água! A esta hora? Que tem a hora? É a melhor hora para se estar na praia. Sim, mas não a melhor para se ir ao banho, não tu. Está vento. Sim, eu sei. Vento, mas calor. Vou à água na mesma. Porquê? Porque quero. Porque posso. Vais ficar com frio quando saires. Eu sei que vou ficar com frio, mas apetece-me ir na mesma. Está com um ar tão apetitoso e a água nem sequer está muito fria. Está bandeira amarela. Também vi. E também sei ter cuidado. De que te serve ir à água se sabes que vais ficar com frio depois? Podias ter ido antes. Podia ter ido antes, tal como posso ir agora. E eu quero ir agora, à água. Com vento. Com bandeira amarela. O que queres tu provar? Eu? Sim, tu. Não quero provar nada. Vim à praia, está um dia óptimo e apetece-me ir à água. A quem queres provar que consegues? A mim. Não queres prová-lo a mais ninguém? Não me parece que esteja aqui mais ninguém. Terei, porventura "sozinha" escrito na testa? Estou na praia, sozinha. Vou ao banho, à água, sozinha. Portanto, não tenho que provar nada a ninguém que não a mim mesma. Porquê? Porque sim. Porque posso. Porque quero. Porque se não fôr, nunca hei-de saber se sou capaz.