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15 de outubro de 2009

O Perfeito Domínio

Cordas e correntes apertadas, a cadeado fechadas. Ao longo do corpo enroladas num acto de dominação.
Sono cansado. Pesado. Trabalhado. Olhos suturados obnubilam a visão.
A cama de todos. De tudo. Dos corpos. Das mentes. Das ideias. Da imaginação.
Dos sonhos, não.
Mergulho no escuro. Da cama ferrada, da vida tapada. Acorrentada à exaustão.

5 de outubro de 2009

Amigos Imaginários?

Como uma pessoa consegue andar uma vida inteira enganada A fazer mal. A desperdiçar tempo com coisas que, na realidade, não servem para nada. Até que, um dia, do nada, tem uma visão, um insigh e tudo passa a fazer sentido de uma outra maneira, da outra maneira, ao contrário, quase do avesso! De certo que não se passa somente comigo, mas fui eu que tive a última revelação e fui eu quem teve que lidar com ela… Toda a vida tive amigos imaginários. Quem me conhece sabe, quem não conhece, desconfia. Fazem parte do meu imaginário, a par com a realidade disfarçada em que vivo. Falamos muitas vezes uns com os outros e temos com cada conversa… na maior parte das vezes concordam comigo, raramente discordam ou discutem e, desta maneira, temos partilhado uma vida conjunta já com alguns anos de desenvolvimento. Só que… há pouco dias, tive uma revelação. Daquelas que aparecem do nada, que surgem imateriais mas que rapidamente se materializam na nossa cabeça e já não saem mais! Decerto que não estou a falar estrangeiro para ninguém. Nesta aparição tive a consciência daquilo que tenho andado a fazer estes anos todos. A falar com personagens? Imaginárias? Pessoas do meu dia-a-dia que materializo ao meu lado e com quem vou mantendo conversas e que me respondem aquilo que quero ouvir. Onde é que tenho andado com a cabeça?! Cheguei à conclusão, tímida e envergonhada, que tenho andado a perder tempo toda uma vida com... isto. Isto, quando poderia muito bem ter mantido estas conversas com os objectos que me rodeiam! Já alguém imaginou a quantidade de história que os objectos que nos rodeiam e que acompanham a nossa vida, todos e todos os dias, têm para nos contar?!
Descobri um novo mundo! Vou explorá-lo!

11 de setembro de 2009

Tricot da vida alheia

Vem! Podes vir agora. Não está aqui ninguém nem ninguém nos vai ver. Salta cá para fora com cuidado para não fazeres barulho e não te magoares. Assim vamos poder estar à vontade e, principalmente, vamos poder falar à vontade sem olhos nem ouvidos demasiados atentos e demasiado conclusivos. São sempre assim os olhos e os ouvidos alheios: cheios de conclusões basilares. Nunca conseguem ver nada para além daquilo que querem ver. Constroem histórias mais rápido que um novelista e o novelo que desenrolam é de tal maneira extensível, que me admira não tropeçarem nele em toda a sua extensão. Tropeçam outros que se deixam enrolar na conversa ao conversarem sobre o que não lhes diz respeito. Respeito quem não tricota esta teia alheia e nos deixa à vontade. Aos dois. Gosto de falar contigo. Gosto que gostes de falar comigo. Mas não gosto dos olhares indiscretos. Os de soslaio. Os diagonais. Não gosto que me julguem só porque não percebem. Perceberiam que estás aqui? Que és real? Que sempre o foste? Perceberiam se lhes explicasse que estou a falar contigo mesmo que, através dos seus olhos, não te vissem? Perceberiam se lhes explicasse que estou a falar contigo mesmo que, através dos seus ouvidos, não te ouvissem? Perceberiam… à sua maneira…

16 de agosto de 2009

Sabe bem...

noites de Verão quentes contar as estrelas e apontar com o dedo e passear de mãos dadas sem falar e falar de tudo e mais alguma coisa e o cheiro a terra molhada quando chove e sentar na areia e olhar o mar e fazer guerras de areia e rebolar na areia e fazer sku e beber copos com os amigos e ter conversas parvas e ter amigos e ter conversas viajar sem destino conduzir de janela aberta com música alta cantar em todo o lado cantar musica pimba e dizer que é pela piada ir ao cinema e ver um bom filme ver outro de seguida e ir a museus aprender e comprar livros e começar logo a lê-los e saltar palavras para chegar ao fim comprar roupa gastar dinheiro tirar fotografias ver fotografias mostrar fotografias andar a pé sem rumo nadar no mar sem ondas estar horas ao sol quente ficar bronzeada olhar para espelhos que não engordam ouvir piropos rir de uma piada seca tentar dizer uma piada seca e não controlar o riso e doer o estômago e estar na esplanada ao final da tarde e ver o pôr do sol sorrir partilhar uma sobremesa partilhar uma pastilha elástica re-aprender a fazer balões falar com pessoas interessantes ser interessante sonhar e recordar os sonhos sonhar acordada falar sozinha e eu responder falar sozinha e alguém responder beber mojitos com caracóis comer bolas de manteiga e tortas de chocolate correr pela casa jogar badminton em casa fazer rafting e ter medo e frio e querer fazer mais ter surpresas fazer surpresas amar e ser amado pensar e ser pensado deitar tarde e não levantar cedo e conseguir levantar cedo e ser feliz

10 de agosto de 2009

Só, na multidão...

A capacidade de estarmos sozinhos no meio da multidão (quando não imposta), é intrínseca à maneira como nos sentimos. É proporcional à estabilidade do inconsciente e inversamente proporcional à vulnerabilidade de nós mesmos.
Usufruir do estar-se sozinho, só funciona quando as vozes interiores se calam, quando o pensamento inseguro se desliga e quando nos conseguimos desligar do mundo que nos rodeia, podendo assim, passar a observá-lo e analisá-lo.
Inspirações de confiança de forma a homogeneizar o sentimento de segurança, de periodicidade regular e contínua, equilibram a balança que tende para o negativo, como se de difícil se tratasse. Mentira. Basta praticar. E, ao mesmo tempo, dominar a insegurança. Aniquila-se metade do egocentrismo que leva ao desconforto, porque, se não acreditássemos que o Mundo tem os olhos postos em nós, não no sentiríamos tão incomodados.
Admiro, portanto, quem tem a capacidade de saber estar só, de conseguir estar só e estar bem. Claro que, também admiro quem, dia após dia, se esforça para o conseguir! Admiro todos aqueles que se esforçam para serem melhores, seja naquilo que for…

1 de agosto de 2009

Habitual. Normal. Característico. Adjectivável.

... sim, faço-o de vez em quando. Não com uma ciclicidade periódica, nem uma periodicidade rotineira, mas de quando em vez faço-o. Não é um hábito nem um costume, diria que é apenas uma mania, mais uma, mas uma mania com lógica, com razão de ser e aplicabilidade prática, só assim as manias fazem sentido, pelo menos as minhas. Aliás, as minhas fazem sempre sentido, de outra maneira, não seriam as minhas manias, nem manias sequer. A ocasionalidade não se prende com o conforto e segurança das actividades rotineiras, a única segurança é a facilidade de pensamento, a desenvoltura aritmética do dia-a-dia de forma a não ser tão dependente dos gadgets actuais, mas não perdendo a dependência material da sua utilização, nem o prazer do manuseamento inato que temos vindo a adoptar com o passar dos tempos. É um entretém, uma forma de me ajudar a adormecer sem o conseguir, e uma forma de me distrair e levar o pensamento para o que não me deixa realmente adormecer. Contra senso, sim, mas é habitual. Normal. Característico. Adjectivável. Digo a tabuada do dois ao nove de quando em vez antes de adormecer! Será assim tão estranho?

15 de julho de 2009

Aftas

Aftas...
Tenho-as vezes sem conta
vezes de mais.
Mas tenho uma táctica...
Mordo-as com os dentes!
vezes sem conta
mordo-as de mais.
Aplico-lhes força e dor
para ver se com a força
esgoto a dor que lhes está destinada.

Faço o mesmo com os pensamentos
Mas as aftas não desaparecem
Nem deixam de doer
E doem demais.

28 de junho de 2009

O Meu Aquário Redondo

Mergulho para dentro do meu aquário. De cabeça, com os braços esticados à minha frente. Consigo fazê-lo sem salpicar o aparador. É chato quando as gotas de água secam e mancham a madeira. É que no preto fica a notar-se ainda mais. Não preciso apertar o nariz. Sempre consegui mergulhar sem ter que o fazer. O mesmo não se passa com as cambalhotas, ficavam sempre a meio quando as fazia dentro de água (há quanto tempo não faço uma?). Talvez seja por isso que tenha optado por fazê-las nos tapetes, no chão, na cama, no sofá, no ar. Com o pino era igual, água nas vias aéreas superiores garantida. Desta vez não faço nenhuma das duas. Mergulho, daquele jeito feminino que é suposto, ligeira curvatura do ângulo, 30 graus diria, pernas e ponta dos pés alinhados e firmes. Sem salpicos. Ajeito o bikini logo de seguida, como sempre, nunca mais os fazem com cola para aderirem completamente ao corpo. Precisam sempre de uma mãozinha no após, os bikinis, acho que deve ser a forma de protestarem pelo tempo passado ao Sol. Dentro do aquário, sento-me na cama que nunca cheguei a comprar para o peixe de peluche. Aquela, de madeira, clara, pinho talvez, talhada à mão e com a pintura tradicional Portuguesa na cabeceira, não estás a ver qual é? Nunca a comprei porque nunca a encontrei com as dimensões certas para caber no meu aquário, mas sei perfeitamente qual seria, se a encontrasse. É nessa cama que me sento. Não me deito, sento-me. Fico mais vigil e alerta, assim. Não é que adormecesse se me deitasse, não agora, dantes talvez. Agora não. A cama está desarrumada e quente. O peixe deve-se ter levantado há pouco, não sei onde terá ido. Azar o dele. O espaço é demasiado pequeno para os dois, logo se vê quando ele chegar. A vista é côncava aqui de dentro. Faz sentido. O aquário é redondo. Se eu tivesse comprado um dos quadrados ou rectangulares, não veria tudo distorcido como vejo agora. Mas os aquários não se querem de outra maneira que não redondos. Não os aquários para peixes vermelhos. Não para o meu peixe vermelho. Onde é que terá ido o peixe? Na realidade, nem me lembro ao certo se o peixe é vermelho ou laranja o meu gold fish de peluche no meu aquário redondo. Ver através da água também turva a imagem. Por acaso hoje nem está suja, a água. Deve ter sido mudada há pouco tempo. Espero que as gotas para o cloro não me façam mal à vista. Sempre tive uns olhos sensíveis com tendência para conjuntivites e inflamações. Será que os peixes também metem gotas nos olhos? Eu meto. Consigo fazer barulhos estranhos. Ouvem-se? Aqui dentro o barulho fica ampliado. Também os sons ficam distorcidos, como a visão, só que é mais divertido. Knock knock knock. Sou eu a bater no vidro com a mão. Consegues ouvir, não consegues? Ponk Ponk Ponk. OK, agora era eu com a minha cabeça, tinha que descobrir se o som era o mesmo, sabes como sou, tenho que experimentar para saber... Aqui dentro é calmo. Por enquanto ainda fico sentada na cama de madeira a observar, talvez daqui a pouco vá dar uma volta, ver os cantos do aquário redondo, de certo que me deve faltar conhecer alguma coisa. Não é que tenha olhado muito para ele nos últimos tempos. Nem para o peixe (deve ter ido à casa de banho, de certeza). Há quanto tempo terei o aquário cá em casa? Estética ou capricho, tem estado sempre em cima do aparador, preto, sem que lhe tenha prestado muita atenção. Está ali qualquer coisa... será um... autocolante?! Que vergonha, é o preço! Ponk Ponk Ponk. (sou eu de novo a bater com a cabeça no vidro, só para confirmar que o som ainda é o mesmo, não se alterou. Imutável, como o aquário redondo e o peixe vermelho ou laranja? desaparecido). Possa, deixei a televisão ligada antes de ter mergulhado. E eu que agora pouca televisão vejo. Porque é que não liguei antes o rádio como faço sempre? Este barulho de fundo da televisão incomoda-me, já não me faz companhia como antigamente, como quando tinha medo de estar sozinha em casa e me escondia debaixo da mesa até que alguém chegasse. Foi esse o segundo de muitos monstros que aprendi a dominar: o barulho de uma casa vazia, a seguir a ter tratado da saúde ao monstro que vive no fundo das camas e nos come os pés se os destaparmos. Ah, ainda havia aquele que, juntamente com os insectos, podia entrar pelos meu nariz e orelhas e boca adentro enquanto dormia! Mas ainda durmo de cabeça tapada... Ponk Ponk Ponk. Aqui. Sentada na cama de madeira, dentro do meu aquário. Redondo. A esquizofrenia. Sou uma esquizo-personagem também (que fique perdoado o plágio da expressão usurpada). A bipolaridade do mergulho sem salpicos. Multipolaridade, diria antes. Entenderias se experimentasses. Mas só cá caibo eu, porventura também o peixe, se chegar a aparecer (não pode ter ido apenas à casa de banho!). Vou ficar aqui sentada. Até ver. Até me apetecer. Na minha casa e no meu aquário. Sentada até me apetecer mudar. Estática como se estivesse a olhar para a televisão que ficou acesa. Desta vez o filme é outro. Vou analisá-lo daqui de dentro, através desta perspectiva côncava, turva, distorcida como uma fotografia Lomo. Estou a ouvir um barulho...também ouves? É a porta! Estão a abrir a porta! Chiu, não faças barulho agora: o filme vai começar.