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27 de janeiro de 2011

"E é evidente: conhecem-se os homens pelo que lêem
mas não só. Como matam - que armas usam -
e como se apixonam - que palavras utilizam nas
declarações de amor. Ah, e ainda um pormenor: de

[quem
tens medo? E que nome dás à coisa grande que do céu
nunca chega a vir porque prefere manter-se assim,
possibilidade?
Se decifrares o último barulho que um muribundo faz,
descobrirás a sua religião, eis uma certeza."



Gonçalo M. Tavares
in
Viagem à Índia

7 de janeiro de 2011

"A ausência de fronteiras confere ao deambular um carácter aventuroso, sem risco. O mapa mental correspondente aos trajectos a efectuar possui uma textura plástica, móbil. O pensamento tanto pode ir para a esquerda como para a direita, oscila, perde-se por instantes, esquece-se, acorda novamente, hesita, embala-se, durante horas, neste movimento..."
***
José Gil
in
Portugal, hoje:
O Medo de Existir

6 de abril de 2010

"Então, fechei os olhos com força e fixei-me no que via. Esta era uma das coisas que fazia desde pequeno, que tinha descoberto por acaso e que imaginava ser eu a única pessoa a fazer no mundo. Fechava os olhos e via. Via o que se vê com os olhos fechados. Via o negro dentro de mim e via os pontos de luz que o quebram, as vagas de luz, as figuras abstractas de luz, os vultos de luz, as sombras de luz dentro da luz do negro dentro de mim. Isto é o que se vê quando fechamos os olhos e continuamos a ver: a cor negra e os pequenos seres de luz que o habitam."
...
José Luís Peixoto
in
Uma Casa na Escuridão, pg. 20

24 de março de 2010

Porque as estrelas também riem

«- As pessoas têm estrelas que não são as mesmas. Para os viajantes, as estrelas são guias. Para outros, não passam de luzinhas. Para outros, os cientistas, são problemas. (...) Mas todas essas estrelas estão caladas. Tu, tu vais ter estrelas como mais ninguém...
(...)
- À noite, pões-te a olhar para o céu e, como eu moro numa delas, como eu me estou a rir numa delas, para ti, é como se todas as estrelas se rissem! Vais ser a única pessoa do mundo que estrelas capazes de rir!
(...)
- E quando te tiveres consolado (porque acabamos sempre por nos consolar), hás-de sentir-te muito contente por me teres conhecido. Hás-de ser sempre meu amigo. Vai-te apetecer rir comigo. E, às vezes, sem mais nem menos, vai-te dar para abrir a janela, só porque é bom... E os teus amigos hão-de ficar de boca aberta quando te ouvirem rir a olhar para o céu. Mas tu dizes-lhes: "Pois é! As estrelas sempre me deram vontade de rir!" E eles ficam a pensar que tu estás maluco.»

Antoine de Saint-Exupéry
in
O Principezinho, pg.88

18 de novembro de 2009

"...só existe uma comunicação universal autêntica:
a troca dos corpos pela linguagem secreta dos signos corporais."
...
in
A Moeda Viva, pg 67

29 de outubro de 2009

"A humidade de lágrimas no rosto mentiroso. Abraçou-a. Ela agarrou-se a ele com força. Ele deu-lhe palmadinhas nas costas, porque lhe tinham dito que isso evocava em toda a gente a reconfortante recordação do bater do coração na mãe dentro do útero."
...
Robert Wilson
in
A Ignorância do Sangue, pg 164

19 de outubro de 2009

Dante

"Ali no ar sem estrelas ressoavam suspiros, prantos e gemidos fundos, que de início o pranto me causaram. Línguas diversas, blasfémias horrorosas, palavras doloridas, inflexões iradas, vozes fortes e roucas e, conjuntamente, mãos batendo faziam um tumulto sem cessar naquela atmosfera eternamente densa, como a areia remexida por um turbilhão. E eu, que sentia a cabeça apertada de horror, perguntei: «Mestre, que é isto que oiço? E que gente é esta, assim vencida pela dor?»"
...
Dante
in
A Divina Comédia:
O Inferno
pg. 17

3 de outubro de 2009

"Tudo o que se pensou do amor ou da loucura através dos séculos assinala a existência e como que a localização de coisas em si. Todavia, não possuímos uma verdade adequada das coisas, porque só alcançamos uma coisa em si através da ideia que dela construímos em cada época."
...
Paul Veyne
in
Foucault
o pensamento
a pessoa
pg.16

17 de setembro de 2009

"They get up early, because they have so much to do, and go to bed early because they have so little to think about."
...
Oscar Wilde
in
The Picture of Dorian Gray, pg 202

12 de setembro de 2009

"... Lá de fora vinha o ruído do trânsito ao fim do dia, um ruído de gente e automóveis apressados, gente que queria voltar para casa, onde estavam os que amavam ou os que se tinham habituado a amar, sem fazer demasiadas perguntas nem exigir nada mais do que esse amor tranquilo de todos os dias..."
...
Miguel Sousa Tavares
in
No Teu Deserto, pg 110

6 de setembro de 2009

"... Nisto, quando guardam para sempre um instante que nunca se repetirá, as fotografias não mentem - esse instante existiu mesmo. Porém, a mentira consiste em pensar que esse instante é eterno..."
...
Miguel Sousa Tavares
in
No Teu Deserto, pg 15

3 de setembro de 2009

"... cada um só recebe mediante a sua capacidade de receber (...) ninguém suporta receber mais do que aquilo que é capaz de devolver - sob a ameaça de pertencer àquele de quem não cessa de receber."
...
in
A Moeda Viva, pg 61

24 de agosto de 2009

"Talvez não possa ser de outra maneira, talvez seja preciso escolher: não ser nada ou representar o que é. Mas é terrível ser-se levado pela nossa própria natureza."
...
Sartre
in
A Idade da Razão
(Os Caminhos da Liberdade), pg. 264

18 de agosto de 2009

"Olho a planície (...)
e sinto-me invadido dessa plenitude
de quem olha o mar
do alto de uma falésia."
...
Vergílio Ferreira
in
Aparição

7 de agosto de 2009

Nunca somos idênticos a nós próprios

"Na verdade, mesmo que um animal passe por um ser vivo e idêntico a si próprio no tempo que medeia entre a infância e a velhice, mesmo que se afirme ser o mesmo, nunca é, na verdade, sempre o mesmo. Incessantemente rejuvenesce e continuamente perde o pêlo, a carne, os ossos, e o sangue e, não apenas no corpo, mas também no espírito. Costumes, carácter, opiniões, paixões, prazeres, aborrecimentos, temores, jamais qualquer dessas coisas se conserva sempre igual no nosso espírito, mas umas nascem e outras morrem. Mas, o que é ainda mais estranho, é que os nossos conhecimentos tão depressa nascem como perecem, e nunca somos idênticos a nós próprios."

Platão

in

O Banquete

(O Simpósio ou do Amor) pg.98

23 de julho de 2009

Em Nome do Amor Puro

"Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa não é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.
O que eu quero fazer é o elogio ao amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Teixeira de Pascoaes meteu-se num navio para ir atrás de uma rapariga inglesa com quem nunca tinha falado. Estava apaixonado, foi parar a Liverpool. Quando finalmente conseguiu falar com ela, arrependeu-se. Quem é que hoje é capaz de se apaixonar assim?
Hoje em dia as pessoas apaixonam-se por uma questão prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão mesmo ali ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato. Por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram «em diálogo». O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornam-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-socio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que deveria ser desmedida, é na medida do possível. O amor transformou-se numa questão prática. O resultado é que as pessoas em vez de se apaixonarem de verdade, ficam praticamente apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há. Estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do «tá bem, tudo bem», tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores de romance, romanticidas.
Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o medo, o desequilíbrio, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso «dá lá um jeitinho» sentimental. Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Por onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, fachada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassado ao pessoal da pantufa e da serenidade.
Amor é amor. É essa a beleza. É esse o perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo de ainda apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A «vidinha» é uma conveniência assassina.
O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para se perceber. O amor é um estado de quem se sente.
O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. E é por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita. Não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que se quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar. O amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe.
Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não está lá quem se ama, não é ela que nos acompanha – é o nosso amor, o amor que se lhe tem.
Não é para se perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder, não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um minuto de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."


Miguel Esteves Cardoso
in
Último Volume, pg 75

16 de julho de 2009

...
"Mrs. Dalloway fez saber que ela mesma se encarregaria de comprar as flores."
...
Virginia Woolf
in
"Mrs. Dalloway" pg.5

12 de julho de 2009

Reflections of a Skyline


"And I want to play hide-and-seek and give you my clothes and tell you I like your shoes and sit on the steps while you take a bath and massage your neck and kiss your feet and hold your hand and go for a meal and not mind when you eat my food and meet you at Rudy´s and and talk about the day and type up your letters and carry your boxes and laugh at your paranoia and give you tapes you don't listen to and watch great films and watch terrible films and complain about the radio and take pictures of you when you´re sleeping and get up to fetch you coffee and bagels and Danish and go to Florent and drink coffee at midnight and have you steal my cigarettes and never be able to find a match and tell you about the tv programme I saw the night before and take you to the eye hospital and not laugh at your jokes and want you in the morning but let you sleep for a while and kiss your back and stroke your skin and tell you how much I love your hair your eyes your lips your neck your breast your arse your
and sit on the steps smoking till your neigbour comes home and sit on the steps smoking till you come home and worry when you´re late and be amazed when you´re early and give you sunflowers and go to your party and dance till I´m black and be sorry when I´m wrong and happy when you forgive me and look at your photos and wish I´d known you forever and hear your voice in my ear and feel your skin on my skin and get scared when you´re angry and your eye has gone red and the other eye blue and your hair to the left and your face oriental and tell you you´re gorgeous and hug you when you´re anxious and hold you when you hurt and want you when I smell you and offend you when I touch you and whimper when I´m next to you and whimper when I´m not and dribble on your breast and smother you in the night and get cold when you take the blanket and hot when you don´t and melt when you smile and dissolve when you laugh and not understand why you think I´m rejecting you when I´m not rejecting you and wonder how you could think I´d ever reject you and wonder who you are but accept you anyway and tell you about the tree angel enchanted forest boy who flew across the ocean because he loved you and write poems for you and wonder why you don´t believe me and have a feeling so deep I can´t find words for it and want to buy you a kitten I´d get jealous of because it would get more attention than me and keep you in bed when you have to go and cry like a baby when you finally do and get rid oh the roaches and buy you presents you don´t want and take them away again and ask you to marry me and you say no again but keep on asking because though you think I don´t mean it I do always have from the first time I asked you and wander the city thinking it´s empty without you and want what you want and think I´m losing myself but know I´m safe with you and tell you tha worst of me and try to give you the best of me because you don´t deserve any less and answer your questions when I´d rather not and tell you the truth when I really don´t want to and try to be honest because I know you prefer it and think it´s all over but hang on in for just ten more minutes before you throw me out of your life and forget who I am and try to get closer to you because it´s beautiful learning to know you and well worth the efford and speak German to you badly and Hebrew to you worse and make love with you at three in the morning and somehow somehow somehow communicate some of the overhelming undying overpowering unconditional all-encompassing heart-enriching mind-expanding on-going never-ending love I have for you."


Sarah Kane in "Crave"
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24 de junho de 2009

...
D - (...) se os vícios de uns tornam as virtudes perigosas para outros, não será prestar um serviço à juventude asfixiá-las neles logo ao nascer? Vens tu falar-me de remorso, meu amigo? Poderá existir remorso na alma daquele que em nada reconhece crime? Que os vossos princípios o sufoquem se lhe temeis o aguilhão: será possível acabardes por arrepender-vos de uma acção de cuja indiferença estejais profundamente compenetrado? A partir do momento em que não vejais mal em coisa alguma, de que mal é que podereis arrepender-vos?
C - Não é do espírito que vêm os remorsos, eles são produto apenas do coração, e jamais os sofismas da cabeça extinguiram os movimentos da alma.
D - Mas o coração engana, por nunca ser mais que a expressão dos falsos cálculos do espírito (...)
...
Marquês de Sade
in
A Filosofia na Alcova, pg 215

15 de junho de 2009

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"A man who is a master of himself can end a sorrow as easily as he can invent a pleasure. I don´t want to be at the mercy of my emotions. I want to use them, to enjoy them, and to dominate them."
....
Oscar Wilde
in
"The Picture of Dorian Gray", pg 126