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23 de julho de 2009


Em Nome do Amor Puro

"Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa não é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.
O que eu quero fazer é o elogio ao amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Teixeira de Pascoaes meteu-se num navio para ir atrás de uma rapariga inglesa com quem nunca tinha falado. Estava apaixonado, foi parar a Liverpool. Quando finalmente conseguiu falar com ela, arrependeu-se. Quem é que hoje é capaz de se apaixonar assim?
Hoje em dia as pessoas apaixonam-se por uma questão prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão mesmo ali ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato. Por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram «em diálogo». O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornam-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-socio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que deveria ser desmedida, é na medida do possível. O amor transformou-se numa questão prática. O resultado é que as pessoas em vez de se apaixonarem de verdade, ficam praticamente apaixonadas.
Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há. Estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do «tá bem, tudo bem», tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores de romance, romanticidas.
Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o medo, o desequilíbrio, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?
O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso «dá lá um jeitinho» sentimental. Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Por onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, fachada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassado ao pessoal da pantufa e da serenidade.
Amor é amor. É essa a beleza. É esse o perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo de ainda apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A «vidinha» é uma conveniência assassina.
O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para se perceber. O amor é um estado de quem se sente.
O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. E é por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita. Não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que se quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar. O amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe.
Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não está lá quem se ama, não é ela que nos acompanha – é o nosso amor, o amor que se lhe tem.
Não é para se perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder, não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um minuto de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."


Miguel Esteves Cardoso
in
Último Volume, pg 75

12 de julho de 2009

Reflections of a Skyline


"And I want to play hide-and-seek and give you my clothes and tell you I like your shoes and sit on the steps while you take a bath and massage your neck and kiss your feet and hold your hand and go for a meal and not mind when you eat my food and meet you at Rudy´s and and talk about the day and type up your letters and carry your boxes and laugh at your paranoia and give you tapes you don't listen to and watch great films and watch terrible films and complain about the radio and take pictures of you when you´re sleeping and get up to fetch you coffee and bagels and Danish and go to Florent and drink coffee at midnight and have you steal my cigarettes and never be able to find a match and tell you about the tv programme I saw the night before and take you to the eye hospital and not laugh at your jokes and want you in the morning but let you sleep for a while and kiss your back and stroke your skin and tell you how much I love your hair your eyes your lips your neck your breast your arse your
and sit on the steps smoking till your neigbour comes home and sit on the steps smoking till you come home and worry when you´re late and be amazed when you´re early and give you sunflowers and go to your party and dance till I´m black and be sorry when I´m wrong and happy when you forgive me and look at your photos and wish I´d known you forever and hear your voice in my ear and feel your skin on my skin and get scared when you´re angry and your eye has gone red and the other eye blue and your hair to the left and your face oriental and tell you you´re gorgeous and hug you when you´re anxious and hold you when you hurt and want you when I smell you and offend you when I touch you and whimper when I´m next to you and whimper when I´m not and dribble on your breast and smother you in the night and get cold when you take the blanket and hot when you don´t and melt when you smile and dissolve when you laugh and not understand why you think I´m rejecting you when I´m not rejecting you and wonder how you could think I´d ever reject you and wonder who you are but accept you anyway and tell you about the tree angel enchanted forest boy who flew across the ocean because he loved you and write poems for you and wonder why you don´t believe me and have a feeling so deep I can´t find words for it and want to buy you a kitten I´d get jealous of because it would get more attention than me and keep you in bed when you have to go and cry like a baby when you finally do and get rid oh the roaches and buy you presents you don´t want and take them away again and ask you to marry me and you say no again but keep on asking because though you think I don´t mean it I do always have from the first time I asked you and wander the city thinking it´s empty without you and want what you want and think I´m losing myself but know I´m safe with you and tell you tha worst of me and try to give you the best of me because you don´t deserve any less and answer your questions when I´d rather not and tell you the truth when I really don´t want to and try to be honest because I know you prefer it and think it´s all over but hang on in for just ten more minutes before you throw me out of your life and forget who I am and try to get closer to you because it´s beautiful learning to know you and well worth the efford and speak German to you badly and Hebrew to you worse and make love with you at three in the morning and somehow somehow somehow communicate some of the overhelming undying overpowering unconditional all-encompassing heart-enriching mind-expanding on-going never-ending love I have for you."


Sarah Kane in "Crave"
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11 de junho de 2009

Fisiologia da Paixão e do Amor

(...) Quantos órgãos estão ligados directamente à Paixão e ao Amor? O Coração impreterivelmente, porque sim, porque é praticamente genético. Porque bombeia todo o sentimento corpo fora. Transforma o sangue em Desejo e Necessidade e flui-o por todos os capilares, para avisar que o corpo foi dominado, foi tomado por uma vontade alheia com vida própria, sem regulador externo, só impulsionador. E é por isso que o Coração é o órgão major do Amor. Sim, porque quem sente é o Estômago, daquela forma involuntária, espontânea, repentina e fugaz. É o estômago que dói. É nele que se espetam agulhas, ferrões de abelha, picos de rosas e cactus, enquanto as borboletas coreografam o seu bailado contemporâneo. São um clássico as borboletas, que na sua passagem breve pelo Estômago avisam o Cérebro que o Coração transformou o sangue. São elas o mensageiro (que morre sempre por trazer a notícia) que diz ao Cérebro que já não precisa reunir as tropas, porque o castelo não lhe pertence mais. Estivesse mais atento, mais vigil. O papel dele, a sua função protectora deveria ter sido exercida antes do Coração ter terminado a primeira bombeadela. Antes dos eritrócitos terem passado da aurícula para o ventrículo. Não interferiu no funcionamento natural, geológico da válvula, qual barragem a evitar o sangue em demasia. Devia tê-lo feito. Assim, por culpa do Cérebro adormecido, anestesiado pelo prazer hediondo, o Desejo e a Necessidade, não só percorrem o corpo penetrando em cada célula, como dominaram o espaço intersticial dos Pulmões. São eles os próximos. Os que trabalham mais neste jogo do foge-que-eu-já-te-apanhei-aqui-estás-será-que-estou? Peito em estado de latência. Energia cinética não contida. Suspiros. Um, dois, muitos. Descontrolados. Respiração intermitente. Quase parada, na dúvida, no medo, no receio, na surpresa. Polipneica quando em contacto com os elementos. Ruidosa quando trabalhada, excitada, violada, atestada, disfarçada. É nela, na respiração, que se projectam os sentimentos, que se espelham as emoções e que se traduz em quantidade de Dióxido de Carbono a intensidade da Paixão e do Amor. Balões se enchessem com cada suspiro, com cada inspiração profunda, por ausência, por excesso, por necessidade, por prazer, por deleite, por libido. É por eles que voamos quando apaixonados. Por causa do Cérebro que não controla o Coração que derrama o Desejo e a Necessidade pelo corpo fora, perfurando cada órgão sem dó nem piedade, mas rezando por perfurações mais profundas, penetrações mais geodésicas, até que, nem a Alma, com toda a sua imaterialidade, se pode proteger. É a Alma contaminada com todos os resquícios que o corpo não soube evitar, que vai espalhar ao mundo, que mais um pirilampo se iluminou na noite escura em que tendemos a viver, como se assim fosse mais fácil. Como se a escuridão fosse a substituta barata da luminosidade natural, bela e resplandescente. É a imatéria, que não se vê, não se sente, não se sabe, que mostra aos ventos que a engrenagem está toda a funcionar e que funciona mesmo. É ela o gerador que leva o calor ao próximo, aos outros. É a imatéria que nos faz parecer especiais (se já não o formos), que nos faz contagiar o mundo com tudo o que de melhor temos. É a Alma iluminada e transformada que, por causa dos impulsos, desejos e necessidades do Cérebro que inflamou o Coração e incendiou o corpo nos seus locais mais recônditos e desprotegidos, nos informa, a Nós, sujeitos passivos, que Amamos com a Loucura de toda a nossa Paixão.