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23 de março de 2010

10 de fevereiro de 2010

Onde a Lua repousa

Nos sítios recônditos e escondidos. Inacessíveis mas não impossíveis. Onde a Lua repousa, cheia, prenha de vida, de luz cinética, electrizante, na dialéctica de braille pestanejado. Do que não é dito... desejado... No colo da onda, na espuma diluída. Focos de luz. Focos de vida. Estímulos auriculares que se propagam paredes acima. Na cova secreta. Ao virar da esquina. É lá que te espera... o toque...

7 de dezembro de 2009

Com a ponta dos dedos

Dedilhando com a ponta dos dedos como que para descobrir o território. Demarcar os limites visuais com o tacto. Com a ponta dos dedos. Identificar cada falésia, cada lago, cada montanha, cada recife. Aglutinar a geografia irregular no conhecimento pleno e cego. Do tacto. Da ponta dos dedos. Tactear cada recanto escondido que visualmente não se manifesta. Doar a sensação do toque, intermitente, deslizante, instintiva como única dádiva sensitiva. Sensível. Quase invisível. Com a ponta dos dedos, aprisionar o momento numa polaroid a pionés cravada no corpo. Várias vezes. Repetidamente. No corpo. Cravada. Perscrutar o resultado na palpitação do pescoço, jugularmente. Obsessivamente. Com os lábios. Molhados. Quentes de saliva não digerida. Como a sensação. Como a ilusão. Partilhada. Pela ponta dos dedos, trocar de mão. Guiá-la pelas estrelas. Fazê-la seguir pela Estrada de Sant’iago, como os navegadores que, sem medo, ousavam. Ousar tocar com a mão... e devolver... o toque... com a ponta dos dedos.

5 de dezembro de 2009

Cheiro de quem o sente na ebulição dos estímulos olfactivos

Assim, entranhado nos mesmos cantos redondos da memória. Nos caminhos olfactivos que conduzem ao estômago estimulados a pequenas descargas eléctricas. Constantes. Persistentes. Não obedientes. Mas intensas… Lá, no estômago, onde tudo se sente. Onde tudo se recorda. Onde tudo se vive, é onde fica. O cheiro. O aroma. O perfume. O ritmo. O compasso. O astrolábio que sabe os cantos, os redondos, de cor. De olhos fechados. Com o tacto. Com o desejo. Com o vício. Com a arte. Assim, eternamente entranhados. Nas entranhas cravados, os cheiros. Os aromas. Os perfumes que nos rodeiam. Nos agarram. Nos paralisam. Nos transformam… que tanto nos deixam a contemplar as estrelas, aquelas, as da noite, quando à noite… como nos desce ao quente do Inferno, de Dante. No levante dos pensamentos. Lá, a jusante, para onde estendemos a mão, enquanto a outra, retida, guarda o estômago, para que nada fuja e tudo sinta, na ebulição dos estímulos olfactivos…

2 de dezembro de 2009

Loucura de quem a vê

Chove. Não torrencialmente. Loucamente. Daquela maneira desordenada e sem sentido que a chuva tem. Multidireccional. Opcional, à sua escolha, só sua. Desordeira. Chove ao contrário. Chove de baixo para cima. Diria mesmo que me chove em cima. Vejo as pedras a subirem em direcção ao céu tal a loucura descontrolada. Desgovernada. Desamparada. Da chuva. De quem a vê. E das pedras, que sobem sem ter onde chegar. Sem ter onde cair. Salmões sem ter onde desovar. Pedra-peixe sem ter de quem cuidar. Amar. Louca sem querer. A pedra. Louca por chover. O peixe. Louca para saber onde vai parar. A chuva. E quem a vê. E chove cada vez mais. Chove tanto aqui dentro… ainda bem que lá fora está Sol!

12 de outubro de 2009

A Feiticeira e o Aprendiz

Anda daí.

Onde vamos?

Vou-te levar a um sítio. Especial. Vou-te levar ao sítio mais bonito do Mundo. Onde o Céu e a Terra se juntam. Onde consegues tocar nas Estrelas, fazer-lhes cócegas e mudá-las de lugar. Onde o som do Mar é a banda sonora perfeita para a simbiose que só lá se alcança. Onde fechas os olhos e te sentes a flutuar. Onde danças com o Vento.

É mais um dos teus sítios imaginários onde as tuas personagens te fazem companhia?

Não. Este é real. Vais vê-lo e senti-lo. Cheirá-lo. Tocá-lo. E, no final, vais descrevermo-lo para eu saber se o viveste tal como eu. Para eu comparar as tuas sensações, as tuas percepções, os teus sentimentos e para aprender contigo o que te tentei ensinar.

O que devo levar?

Vontade.Um espírito aberto e uma mente estéril. E vinho. Imitaremos os sábios Maias e vamos incorporar a Natureza, ver o futuro, o que nos espera, o que ele nos reserva, o que está traçado, como se o destino existisse. Vamos fumar o cachimbo dos sonhos e rir às gargalhadas com as descobertas que faremos. Um do outro. Vamos interpretar o fumo que se dispersa no Ar e distinguir as suas formas pagãs.

E o Mar? Ouve-se bem?

Como se a própria Tétis, deusa do Mar, se sentasse ao teu lado, juntamente com as sereias de Ulisses. A cantar. E som é de tal maneira nítido, que conseguimos ouvir os peixes e o canto das baleias dos Açores em migração. Serão eles a tua companhia, nesta nossa viagem.

E tu, onde estarás?

Ao teu lado. A ouvir-te e a ler-te o rosto enquanto a Lua se desvia e pinta as sombras com vida que se vão desenhando, transformando-o a cada momento em algo novo, à medida que os teus pensamentos mudam. Como se fosses uma tela de cinema.

E o que vamos fazer?

Falar. Falar. Falar. Como se não houvesse amanhã. Falar de tudo e de nada. De como o cheiro do Outono é forte e intenso. Especialmente de noite, quando o orvalho intensifica o aroma a terra molhada. Falaremos dos sapatos brilhantes da Dorothy e do valor da amizade. Falaremos do pote de ouro que está no final do arco-íris. De como é bom viajar entre os sonhos e entre mundos paralelos. De como é bom ser ouvido. E ouvir. Ouvir. Ouvir.

E quando estiver frio, beberemos mais vinho e seremos mais feiticeiros ainda e afortunados por podermos partilhar o vento fresco e uma manta polar, em plena Serra, em plena Noite, ao som do Mar e da Natureza, iluminados pela Lua e pelas Estrelas.

E vamos sorrir. De olhos fechados.

E, mesmo no escuro da noite, vamos conseguir ver.

Que a felicidade está na partilha.

Destes pequenos momentos.

Intensos.

Imensos.

E únicos.

8 de outubro de 2009

Ihr Parfüm

Como uma brisa. Em movimento. A trinta e três rotações, como os discos, que giram, como a brisa, que move e risca a paus de giz o ar, como um caminho. Como o caminho, a seguir. A perseguir. A ser perseguido. Pela brisa. Daquelas de final de dia nas tardes de Verão. Suave. Subtil. Silenciosa. Insuspeita. Mas atenta, na sua rota centrífuga. Em que o centro não permite mais a fuga. Como uma dessas brisas quentes transportadas dos países tropicais onde tudo vibra em uníssono: o calor a música o suor os corpos o sal a sede o desejo a vontade. Como tantas outras brisas, sopradas das nuvens despertas, que libertas da sua vontade, as oferecem aos outros, que cheiram e sentem, que inspiram e recordam, que expiram mas guardam o seu cheiro, cheio. Apenas uma brisa, primária, naquele compasso em que o olhar passa e se cruza, no sentido em que a brisa será sentida, com o sentido de ser soletrada, notada e relembrada. A brisa. Presente. Acutila o olfacto e trás de novo o aroma de volta. Que fica.

6 de agosto de 2009

O Teu Toque

Imagino o teu toque.

Sei-o. Sinto-o.

Contido. Limitado. Renitente. Reticente.
Com pausas. Indecisões. Dúvidas. Recuos e avanços.
Com tremores. Com vontade. Com medo.
Com desejo. Com receio.
Imagino-o por mim fora. Por mim adentro.

Sei-o. Sinto-o.

Mágico. Firme. Sensual. Delicado.
Decidido. Conhecedor. Explorador. Atrevido.
Desprotegido. Meigo. Terno.
Ergonómico. Económico.
Imagino-o meu.
Por mim. Para mim. Através de mim.

Sei-o. Sinto-o.

Desejoso. Temeroso. Libidinoso. Apaixonado.
Desesperado. Acordado. A dormir. Verdadeiro.
Pulsátil. Inocente. Envergonhado. Dependente.
Viciante. Viciado. Sonhado. Despido. Temido.
Imagino-o como único que é.