Sentou-se.
No chão.
Cruzou as pernas uma na outra num nó de marinheiro sem mar. Sem barco ou vela para velejar. Mas boiou. Sentada no chão, flutuou. Sentada no chão deixou-se levar pelas vagas ímpares. Deixou-se levar pelas horas vagas. Vazias de tão transbordadas de pensamentos. Com as pernas cruzadas. Por longos momentos...
Os pés.
Tão perto como distais. Fortes. Animais. Olhou-os como sempre. Os mesmos. Os que sempre a levaram a tomar todas as decisões. Os mesmos que criavam raízes de carvalho nas florestas assombradas dos pesadelos. Novelos, foi o que pensou. Novelos.
A vê-los.
Ficou. Embalada na sua própria ladainha inata. A sua nata. Trauteou cada nota à sua maneira. Ao seu jeito. E sem jeito ficou com o tempo que demorava a enrolar o novelo que sobrevivia dos nós que, desfeitos, se desfaziam perante os seus olhos. Novelos de si mesma. A partir dos pés. Pedaços de pés que das unhas se enrolavam em circulares irregulares. Proporcionalidades directas: quanto menos unhas mais bolas; quanto menos dedos mais novelos.
E deitou-se.
Continuou a enrolar-se a si mesma para se guardar arrumada por cores formas tamanhos pesos medidas despedidas desmedidas...
Tudo o que precisaria de si, só. Novelos de si dentro de garrafas a boiar. O mar: nas suas vagas ímpares encarregar-se-á de a resgatar.
l'amour
Há 8 anos
5 comentários:
Excelente ritmo, frases geniais: "Proporcionalidades directas: quanto menos unhas mais bolas; quanto menos dedos mais novelos." Estou a ver que a inspiração está a atacar! Óptimo! :-)
Permanentemente enleados.
Em permanente luta.
Perdidos, difusos, confusos de tanta volta e de tanto pensar...
I
Deixa lá ver se a inspiração fica ou vai. Desta vez apareceu ;)
L
Confusos de tnta volta, é isso mesmo. Malditos novelos :p
bom de se ler
não há melhor razão para se escrever
:)
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